Hoje assisti um daqueles filmes memoráveis, que faz refletir e, mais do que isso, desperta uma vontade linda de encarar as coisas sob uma nova perspectiva. Como diria Chaplin, "num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação".
Andrew Niccol teve uma brilhante ideia que acabou por incluir um pouco daquelas explosões e correrias hollywoodanas, mas que ainda assim fez de "O Preço do Amanhã" (In Time, 2011) um filme muito interessante.
No mundo de O Preço do Amanhã, tempo é dinheiro. Literalmente. Nele, as pessoas nascem com um relógio no braço. Quando elas fazem 25 anos, não envelhecem mais, mas em compensação o relógio começa uma contagem regressiva. A partir daí, elas têm um ano de vida. Para não morrerem, as pessoas trabalham em troca de mais tempo de vida, e pagam todas as suas contas justamente com o tempo que lhes resta. Enquanto tem gente que vive um dia de cada vez, outros têm décadas, alguns até séculos. Obviamente, como em qualquer sociedade dividida por classes, isso acaba por gerar tensão e crime.
Justin Timberlake é Will Salas, um pé-rapado que se acostumou a nunca ter mais de 24 horas restantes no seu relógio. Tudo munda quando, num belo dia, ele ajuda um homem que tem anos de sobra e é presenteado com um século de vida. Enquanto ele vai até o bairro dos ricos (chamados no filme de “zonas de tempo”) sentir um gostinho da vida boa, a polícia resolve investigar a transação e começa a persegui-lo.
Assim como nos países da nossa sociedade, para atravessar uma fronteira existem barreiras com as quais nem todo mundo pode arcar, e é justamente para isso que elas estão lá. Exatamente como na realidade, tem um monte de gente esbanjando enquanto outras têm menos do que o suficiente para continuarem vivas. Aqui já temos um comparativo muito reflexivo: porquê perdemos tanto tempo em coisas banais? O que fazemos com o que temos? Será que não temos o suficiente enquanto tanta gente daria tudo para ter talvez um terço do que possuímos e muitas vezes não valorizamos?
A quantidade de bens que a nossa sociedade produz é mais do que suficiente para todos viverem dignamente, mas o sistema é organizado para que aqueles que têm muito tenham cada vez mais, enquanto os que têm menos tenham cada vez menos. Essa é uma discussão bastante presente neste filme, e é o que o torna tão especial.
O primeiro ato é repleto de diálogos que servem para apresentar seu mundo como uma metáfora para o nosso. Depois começa a ação, culminando em algo que poderia ser chamado de "Robin Hood moderno".
Nesse sentido, o filme traz críticas sociais e metáforas relativas à nossa própria forma de vida. E faz isso de forma criativa e divertida, apesar do assunto ser bem sério. Um ponto positivo do filme. Ele mistura reflexão com o cinema que estamos acostumados, aquele apenas fascinante por efeitos e explosões. E por isso mesmo, merece destaque entre os demais que têm saído por aí, por não ser apenas explosões.
“Para alguns serem imortais, muitos devem morrer” é a frase do filme. Saindo da caverna de Platão e traduzindo pra realidade: "Para alguns serem ricos, muitos devem passar fome". Eis o nosso mundo e seu sistema desigual, no qual há o suficiente para todos mas alguns têm demais, deixando nada para alguns. Triste realidade.
Finalizo com outra frase do filme que me fez pensar: "Um dia é muito tempo."
Andrew Niccol







